Facebook

Jornal do Bairro Alto

O sopro da vida

A vida é um sopro, breve demais para que consigamos entender a sua complexidade. Quando enfrentamos perdas é que percebemos como é ilusória a nossa percepção sobre o mundo e nós mesmos. Mais dolorida ainda é a perda de uma criança porque não é o ritmo natural das coisas.

Recentemente um grande amigo passou por esse trauma. Ele perdeu uma sobrinha de nove anos, vítima de câncer. A doença foi devastadora para a pequena Isadora e para a família. Eu a conheci enquanto ainda estava saudável. Tinha aquele jeito de criança que não liga muito para os elogios, apesar de ouvir muitos.
Sua partida prematura é a concretização da sentença de que a vida é feita de uma matéria volátil, etérea. Como pode alguém partir assim tão cedo? Que propósito pode haver numa trajetória tão curta? As perguntas vão continuar a me ocorrer sempre que lembrar da Isa. No fundo, fiquei pensando em como vivemos uma ilusão constante. Acreditamos que as coisas têm valor por si só, que temos poder sobre nosso destino, que um carrão ou uma boa conta bancária compensarão nossos problemas mal resolvidos. Não nos damos conta de que nem sempre teremos tempo para consertar nossos erros e por isso é preciso mais cuidado com a vida. E quanta gente não desperdiça tempo e energia cultivando mágoas, alimentando o ódio e insistindo em erros previsíveis. E assim, vão perdendo o melhor da vida. A Isa gostava de escrever e empresto um trecho do poema que escreveu enquanto estava internada, num dos dias, dos 210 dias que ficou no hospital: “Hoje o sol saiu lá fora/Com amor e cara nova/Verdades de dentro, verdades de fora/O amor é o que importa agora”. Com 9 anos e 11 meses a Isa conseguiu entender o que muita gente, nem consegue ter ideia em décadas. Então, na próxima vez que sentir a brisa de uma tarde preguiçosa de domingo, talvez eu entenda que esse é o doce hálito da vida, lição aprendida com uma garota que não está mais aqui para nos ensinar a viver. Isadora Furlan Rodrigues nos deixou no dia 30 de março.

Rua Antonio Cândido Cavalin, 43 - Sala 01 - Bairro Alto - Curitiba - Paraná

CEP 82820-300 - Fone: 41 3367-5874