A Normalização da Dissimulação na Cultura da Pós-Verdade

    Vivemos em tempos onde a “pós-verdade” se tornou comum. Esse termo se refere a um cenário onde as emoções e as opiniões pessoais têm mais peso que os fatos. Nesse contexto, mentir ou distorcer a verdade não é visto como uma desonestidade. Na realidade, muitas pessoas não se consideram mentirosas, mesmo que espalhem informações falsas.

    Essas mentiras estão presentes tanto na vida pessoal quanto na pública. A sociedade parece ter esquecido o que é a verdade, que sempre foi algo muito valorizado. O que antes era um ensinamento básico, como “a verdade vos libertará”, parece ter perdido seu significado. Na era da pós-verdade, as palavras “mentira” e “mentiroso” soam como um julgamento severo, levando as pessoas a evitarem usá-las.

    Muitas vezes, ao se deparar com uma mentira, as pessoas a justificam ou minimizam, dizendo que não se expressaram bem ou que não foram compreendidas. Isso mostra uma despreocupação crescente com a honestidade e a transparência nas relações.

    A Dissolução da Culpa e da Vergonha diante da Mentira

    Historicamente, as mentiras eram acompanhadas de uma certa culpa e vergonha. Mentir trazia desconforto e receio. No entanto, hoje, muitos se sentem à vontade para justificar seus enganos e distorções. Isso é especialmente visível na forma como “pessoas inteligentes” lidam com a verdade.

    Essa mudança se distancia da moralidade e da ética que sempre foram pilares da convivência humana. No passado, a mentira era amplamente reprimida, mas agora parece fazer parte do cotidiano, como se fosse normal.

    O impacto disso é profundo e afeta a confiança nas relações sociais, políticas e científicas. A falta de vergonha ao mentir facilita que informações incorretas se espalhem rapidamente e sejam aceitas como verdadeiras. Assim, a desonestidade se torna mais aceitável, dificultando o diálogo e a compreensão entre as pessoas.

    Metafísica, Causalidade e a Verdade

    A situação se complica quando essa cultura da pós-verdade invade a esfera pública e social. A verdade, antes considerada universal e fundamental, parece ter se tornado uma questão de perspectiva pessoal. Esse problema é amplificado nas áreas da ciência, da política e da história, influenciando a comunicação social de maneira negativa.

    Uma possível solução é voltar aos ensinamentos filosóficos de Aristóteles, que via a metafísica como a “ciência da verdade”. Para ele, conhecer a verdade era entender as causas que fazem as coisas serem como são. Essa verdade não é qualquer verdade superficial, mas a “verdade última” sobre a realidade.

    Tomás de Aquino também esteve muito atento a essa visão. Ele articulou questões fundamentais sobre a busca pela verdade. Para ele, mesmo que a completa compreensão da verdade seja difícil, ninguém está totalmente afastado dela. Esse conhecimento pode ser alcançado de duas maneiras principais: pela resolução, que vai do composto ao simples, e pela composição, que parte do simples até o todo.

    Conhecimento, Abstração e Verdade

    Conhecer a verdade requer um esforço intelectual. A alma humana começa sua jornada de conhecimento através dos sentidos. A partir disso, desenvolve a capacidade de abstrair e entender a realidade maior. O desafio é que o conhecimento não é apenas uma questão de acumular fatos, mas de compreender as conexões e as causas por trás deles.

    A filosofia primeiro, ou metafísica, é a chave para essa busca. Essa disciplina não se ocupa de ações práticas, mas do entendimento profundo do que é a verdade e suas causas. A verdadeira sabedoria é aquela que busca entender as bases fundamentais da realidade.

    A razão especulativa, que busca a verdade, é diferente da razão prática, que se preocupa com ações e resultados. Enquanto a razão prática pode buscar a verdade, seu foco não é necessariamente o conhecimento pela verdade em si, mas a realização de ações corretas. Assim, a filosofia deve ser vista como uma ciência da verdade, buscando sempre as raízes do que é verdadeiro.

    As Causas e a Natureza das Coisas

    É importante destacar que as causas das coisas não são infinitas; elas têm um ponto de origem. Além disso, o que é conhecido normalmente é mais aceito e difundido. Muitas vezes, apenas ouvir algo repetidamente sem questionar se torna uma forma comum de ‘verdade’.

    Muitas pessoas sentem desconforto ao serem questionadas sobre suas convicções. Isso pode ser devido à sua incapacidade de analisar as complexidades da verdade. Para entender melhor, é essencial aprender maneiras específicas de abordar e estudar diferentes áreas do conhecimento, já que cada uma delas possui suas particularidades.

    A verdade, portanto, deve ser afirmada como algo que existe independentemente das opiniões e crenças das pessoas. É essencial voltar a esse entendimento, ou estaremos cada vez mais perdidos na nebulosa da pós-verdade.

    A Pós-Verdade e o Esquecimento da Metafísica

    Quando a pós-verdade se torna comum, ela gera riscos em diversas áreas, incluindo ciência, ética e política. Essa cultura da desinformação e da aceitação de mentiras não só afeta o cotidiano das pessoas, mas também as bases da sociedade.

    A saída para essa crise reside no reconhecimento da metafísica como ciência da verdade. Retomar essa perspectiva pode ajudar a restabelecer uma base sólida para a crença no que é verdadeiro. Essa visão é essencial para um diálogo saudável e para a preservação da confiança nos relacionamentos pessoais e sociais.

    O Retorno à Metafísica: Um Caminho de Esperança

    Aprofundar-se nos ensinamentos de Aristóteles e Tomás de Aquino pode ser o caminho para superar a crise atual. A filosofia, entendida como ciência da verdade, deve ser resgatada para enfrentar o desafio da pós-verdade. A abordagem aristotélica e tomista sobre a verdade nos ensina a importância de reconhecermos a realidade como ela é.

    Essa perspectiva exige que aceitemos que a existência está além de nossas percepções individuais. Precisamos reafirmar que as coisas têm uma natureza própria, independente de opiniões. Essa admissão é fundamental para reconstruir os valores sociais e incentivar discussões fundamentadas.

    Por isso, é vital que todos nós busquemos uma formação que nos permita compreender e discernir entre verdade e mentira, o que pode transformar nosso convívio social e político. A busca pela verdade é um objetivo nobre, essencial para uma sociedade mais justa e íntegra.

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