Bolsonaro culpa por incêndios sem precedentes no pantanal brasileiro

Em mensagem à ONU, presidente do Brasil negou responsabilidade pelos piores incêndios já registrados no Pantanal, apesar de ter cortado proteções ambientais

Enquanto a maior área úmida tropical do mundo queimava, o presidente do Brasil atacou na terça-feira os críticos do histórico ambiental de seu governo.

Em um discurso pré-gravado na Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro acusou “interesses obscuros” ciumentos das exportações de alimentos do Brasil de realizar uma campanha de “desinformação brutal”.

Os incêndios no Pantanal foram “a consequência inevitável das temperaturas locais quentes, juntamente com o acúmulo de matéria orgânica em decomposição”, afirmou Bolsonaro.

Este ano, o Pantanal foi devastado pelo maior número de incêndios desde o início dos registros, na década de 1990. No estado de Mato Grosso, houve 4.200 incêndios em agosto de 2020, em comparação com apenas 184 em agosto de 2019 e 71 em agosto de 2018.

Os incêndios causaram problemas respiratórios aos habitantes humanos da região, tornando o coronavírus mais perigoso e mataram animais raros como onças, pumas e tatus gigantes.

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O Observatório do Clima, uma rede de ambientalistas brasileiros, classificou as negações do presidente de “delirantes”.

“Ele denunciou um conluio inexistente entre ONGs e potências estrangeiras contra o país, mas, ao negar a realidade e não apresentar nenhum plano para resolver os problemas que enfrentamos, Bolsonaro é quem ameaça nossa economia”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo. no Observatório do Clima.

“O Brasil vai pagar o preço por sua irresponsabilidade por muito tempo. Temos um presidente que sabota seu próprio país”.

Acredita-se que o aumento dos incêndios seja causado por uma combinação de mudanças climáticas, desmatamento e ações dos pecuaristas. De acordo com a NASA, a estação chuvosa de dezembro de 2019 a abril de 2020 foi excepcionalmente seca.

Isso deixou o Pantanal mais vulnerável a incêndios que se espalham durante a estação seca de julho a outubro de 2020. Muitos desses incêndios foram iniciados deliberadamente por criadores de gado nos planaltos ao redor do Pantanal para liberar espaço para suas vacas pastarem.

Em seu discurso, Bolsonaro culpou os incêndios na floresta amazônica aos indígenas “queimam[ing] suas terras agrícolas em busca de meios de subsistência em áreas já limpas”. Ele já culpou os indígenas pelos incêndios no Pantanal.

De acordo com a análise de imagens de satélite do Guardian, os incêndios que atingiram a reserva indígena Baiá do Guató, no Pantanal, começaram fora de suas fronteiras.

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Grupos verdes culparam as políticas de Bolsonaro pelos incêndios, acusando-o de retirar poder e recursos das agências que deveriam garantir a proteção ambiental.

Em suas primeiras semanas como presidente, Bolsonaro rebaixou o papel de seu Ministério do Meio Ambiente e removeu as palavras “mudança climática” de sua missão.

Em 2019, Bolsonaro demitiu o chefe da agência espacial por fornecer dados que mostravam que o desmatamento estava aumentando. Bolsonaro disse que os dados eram “sensacionalismo”, mas, na época, outros pesquisadores disseram ao Climate Home News que os dados da agência eram muito conservadores.

A deputada da oposição Fernanda Melchionna disse em comunicado: “O desmonte da política ambiental brasileira, em curso no governo Bolsonaro, é gravíssimo e está causando prejuízos incalculáveis ​​para o Brasil”.

Ela acusou o governo de “militarização dos órgãos de pesquisa e fiscalização ambiental, esvaziamento das ações do Ministério do Meio Ambiente, recusa em fazer cumprir as regras orçamentárias e omissão de ações disponíveis para prevenir e combater o desmatamento e as queimadas”.

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André Luiz Siqueira, diretor da Ecology & Action, disse à BBC que “o Governo Federal reforça a sensação de impunidade” para os agricultores que iniciam as queimadas.

O desmatamento na Amazônia tem sido associado a secas na América do Sul, contribuindo para incêndios como os do Pantanal.

Isso ocorre porque florestas tropicais como a Amazônia produzem ‘rios voadores’, onde a umidade sobe no ar e é transportada pela América do Sul antes de se tornar chuva. Quando a floresta tropical é cortada, esses ‘rios’ tornam-se córregos.

O desmatamento na região vizinha do Cerrado também prejudica o Pantanal. Sem raízes de árvores segurando o solo no lugar, a chuva leva mais sedimentos para o rio Paraguai. Esse sedimento acaba no Pantanal, assore seus cursos d’água e resseca a região.

Bolsonaro está enfrentando pressão de líderes mundiais sobre a devastação. Em agosto passado, enquanto a Amazônia queimava, os líderes alemães e franceses convocaram conversas de emergência sobre os incêndios na cúpula dos líderes do G7.

Desde então, a França ameaçou se opor ao acordo comercial entre a UE e o Mercosul da América do Sul, a menos que todas as nações, incluindo o Brasil, se comprometam a honrar o acordo climático de Paris.

Bolsonaro respondeu chamando o francês Emmanuel Macron de “colonialista” e “sensacionalista”. No discurso de terça-feira na ONU, ele disse que o Brasil é o maior produtor mundial de alimentos e “por isso, há tanto interesse em espalhar desinformação sobre nosso meio ambiente”.

A pressão também veio de instituições financeiras, 29 das quais ameaçaram se desfazer do Brasil, a menos que faça mais para combater o desmatamento. Esses investidores administram quase US$ 4 trilhões em ativos.

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Bolsonaro também está sob pressão em casa. No mesmo dia de seu discurso na ONU, o Supremo Tribunal Federal estava decidindo se ele havia agido de forma inconstitucional ao não fazer pleno uso do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima.

O fundo foi criado durante o governo do presidente Lula em 2009 para permitir que autoridades públicas, cooperativas e empresas privadas reduzissem suas emissões e se preparassem melhor para os efeitos das mudanças climáticas.

Os partidos da oposição que levam o processo judicial acusam o governo de dissolver a secretaria de mudança climática, responsável pelo fundo climático, e abolir o comitê diretor do fundo.

Aqueles que trazem o caso dizem que grande parte do orçamento do fundo de R$ 508 milhões (US$ 93 milhões) não foi gasto. Suely Araújo, do Observatório do Clima, acusou o governo de “inação calculada” e de adotar uma “antipolítica ambiental”.

Bolsonaro enfrenta eleições presidenciais em 2022. Seus últimos índices de aprovação mostram uma divisão equilibrada. Cerca de 39% dos brasileiros o aprovam, enquanto 34% desaprovam.