Espiões brasileiros intimidaram delegados do próprio governo em negociações climáticas

Bolsonaro enviou quatro agentes secretos para a cúpula climática Cop25 em Madri, onde ativistas disseram que os negociadores brasileiros estavam com medo de falar com eles

A agência de espionagem do Brasil foi acusada de tentar intimidar os negociadores de seu próprio governo e ambientalistas brasileiros nas negociações climáticas da Cop25 em Madri em 2019.

O jornal Estadão revelou nesta semana que quatro agentes secretos brasileiros faziam parte da delegação do país, em um sinal da hostilidade do presidente Jair Bolsonaro aos ativistas e à agenda climática.

Três fontes confirmaram ao Climate Home que viram evidências da presença de espiões na cúpula, o que deixou os negociadores brasileiros estranhamente cautelosos ao falar com ativistas. As fontes pediram para não serem identificadas, por medo de represálias contra eles ou seus empregadores.

Os agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) se apresentavam como “analistas”. Falando anonimamente, um agente disse ao Estadão que o objetivo da equipe era receber críticas à política amazônica do Brasil. Bolsonaro procurou abrir a floresta tropical para mineração e pecuária, removendo as proteções ambientais. O agente alegou que os ambientalistas não foram cadastrados, embora tenha dito que suas campanhas eram “motivo de preocupação”.

Antes da eleição de Bolsonaro, o Brasil estava na fila para sediar a cúpula de 2019. Ele desistiu, citando restrições orçamentárias.

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Um ambientalista brasileiro que estava em Madri disse ao Climate Home que eles foram abordados por um homem que perguntou “você está [correct first name]?”. O ambientalista concordou e o homem disse ser do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), órgão presidencial ligado à Abin. A conversa então terminou.

O ambientalista disse ao Climate Home que isso era “estranho, mas não surpreendente”, pois eles esperavam que o governo o tornasse “um ambiente hostil” para as ONGs. Houve um boato de que o pavilhão da sociedade civil brasileira estava grampeado, então algumas discussões foram realizadas fora dele por precaução.

A fonte disse que pessoas que eles suspeitavam serem agentes do GSI/Abin estavam se revezando para participar de reuniões e fazer anotações. Eles disseram que essa coleta de inteligência era tão óbvia que era “engraçada”.

De acordo com dois outros ativistas, os delegados do governo estavam com medo de serem vistos falando com eles, o que não havia sido o caso em nenhuma conversa anterior. Eles acreditavam que esta era a primeira vez que a Abin ou o GSI participavam de conversas sobre o clima.

Um ativista do clima disse que se aproximou de um dos negociadores, que eles conheciam há muito tempo. “Ele nunca olhou para mim enquanto caminhava”, disseram. “E de repente, perto dos sofás entre os pavilhões, ele pula para o lado e se esconde atrás de um pilar. ‘Já lhe disse que não posso ser visto com você, caramba!’ Esse era o nível de estresse deles.”

O outro ativista disse que os delegados do governo só puderam oferecer um “olá muito discreto” e conversar no aeroporto após as negociações. O ativista disse: “Eu sabia que se eu tentasse falar com alguém, isso poderia prejudicar sua posição. Eles poderiam ser demitidos se fossem vistos falando comigo… e não estou exagerando [the Brazilian government is] tão insanos que eles poderiam fazer isso.”

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Carlos Rittl era o diretor executivo de uma rede de ONGs verdes chamada Observatório do Clima na época das negociações de Madri. Ele disse que havia rumores de que agentes da Abin estavam presentes, mas as atividades da sociedade civil brasileira eram todas abertas e registradas – então não havia inteligência a ser obtida espionando-os.

Rittl disse que intimidar a sociedade civil pode ter sido um dos objetivos dos agentes. Antes de ser eleito, Bolsonaro disse que iria “acabar com todo o ativismo no Brasil”. Pouco antes das negociações de Madri, a polícia brasileira invadiu uma ONG na Amazônia e prendeu quatro bombeiros voluntários, acusando-os de iniciar incêndios – uma acusação para a qual não havia provas.

“Se o objetivo deles fosse [to intimidate civil society], eles falharam completamente”, disse Rittl. “As discussões e propostas para a sociedade civil atraíram a atenção de stakeholders de governos, da sociedade civil em todo o mundo, de instituições financeiras multilaterais – e a maioria desses eventos foi lotada.”

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Na época das conversas, a Abin era comandada por Alexandre Ramagem. Ele é um ex-policial que conheceu Bolsonaro enquanto comandava a segurança de sua campanha. Segundo a Reuters, Ramagem é amigo próximo dos filhos de Bolsonaro.

Os governos já enviaram espiões para as negociações climáticas antes. O Wikileaks revelou que o Reino Unido e os EUA o fizeram em 2009 e o Reino Unido o fez em 2010. Nesses casos, porém, documentos vazados sugerem que o objetivo dos espiões era espionar outros governos e descobrir suas posições de negociação em vez de seus próprios delegados governamentais e civis. sociedade.

As agências de inteligência do Reino Unido e dos EUA também tiveram mais cuidado em esconder suas atividades, que só foram expostas através do Wikileaks. Após as negociações, a Abin informou em seu site que compareceu e divulgou os nomes de seus agentes após o pedido de liberdade de informação do Estadão. Eles já revelaram os nomes dos espiões dos EUA com os quais se encontravam, publicando seus nomes em dados de rotina do governo.

A Abin não respondeu a um pedido de comentário para esta matéria.