Os povos indígenas do Brasil aguardam ansiosamente uma decisão da Suprema Corte sobre nossos direitos à terra. Novas leis propostas na UE e no Reino Unido também nos afetarão profundamente

    Durante três semanas, até meados de setembro, milhares de indígenas de todos os cantos do Brasil ficaram acampados a poucos quilômetros do imponente Supremo Tribunal Federal de Brasília.

    Nós dançou, cantou, rezou e cantou. Assistimos com ansiedade o desenrolar do processo dentro do tribunal em uma grande tela ao ar livre, enquanto esperávamos a decisão dos 11 juízes da Suprema Corte do Brasil que moldaria o futuro das demarcações de terras indígenas e nossos próprios destinos.

    Nossa vigília fez parte de uma ação global liderada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a maior organização indígena do país onde atuo como membro do conselho de coordenação – e coincidiu com eventos semelhantes e menores em Londres, Berlim, o Haia, San Francisco e outras cidades ao redor do mundo.

    Em jogo está o nosso direito de ocupar pacificamente as áreas de nossas terras consuetudinárias – e o destino de algumas das florestas e vida selvagem mais importantes do mundo.

    Por enquanto, porém, nossas barracas e estandartes foram empacotados e esperamos. Os juízes adiaram sua decisão, mas por quanto tempo, não sabemos. De acordo com as diretrizes internas do Supremo Tribunal, não deve ser superior a 60 dias, mas isso raramente é cumprido.

    O que está claro é que o resultado de sua decisão repercutirá muito além do Brasil.

    A questão que eles estão deliberando é se os povos indígenas do Brasil só têm direito ao território que estávamos ocupando fisicamente em 5 de outubro de 1988 – quando a atual Constituição entrou em vigor após anos de ditadura militar.

    Se mantido, de uma só vez esse chamado “marco temporal” ou “limite de tempo” colocaria em risco territórios indígenas já reconhecidos pelo Estado, abriria um precedente para centenas de outras reivindicações de terras indígenas e representaria um convite aberto para interesses agrícolas e minerários para destruir ecossistemas preciosos em nome do comércio.

    A agricultura, pecuária e mineração são as maiores causas do desmatamento no Brasil, responsáveis ​​pela destruição desenfreada na Amazônia, no Cerrado e em outros lugares. Enquanto isso, evidências contundentes mostram que nós, indígenas, temos sido um baluarte contra o desmatamento e protetores de nossas terras.

    Ataque implacável

    Este caso “marco temporal” é apenas o mais recente ataque aos direitos dos povos indígenas do Brasil. Somos mais de 300 povos, vivendo em todas as regiões do país.

    Desde que Jair Bolsonaro se tornou presidente em janeiro de 2019, houve um aumento acentuado nas invasões armadas de nossas terras, as salvaguardas ambientais foram destruídas, enquanto o desmatamento e os ataques contra os povos indígenas dispararam.

    É por isso que a APIB pediu ao Tribunal Penal Internacional (TPI) que investigue Bolsonaro por genocídio e ecocídio por sua política anti-indígena explícita, sistemática e intencional e declarações públicas.

    A conscientização sobre esses crimes é generalizada.

    Assim é o conhecimento de que a responsabilidade por eles não é apenas de Bolsonaro, do agronegócio e dos próprios grileiros, mas daqueles que comercializam e consomem bens que levaram a violações de direitos humanos ou foram produzidos em terras roubadas de comunidades indígenas.

    Por isso, enquanto o Supremo Tribunal Federal do Brasil decide sobre o nosso direito à nossa própria terra, leis que também podem ter uma profunda influência sobre o nosso futuro e dos preciosos biomas do Brasil estão em desenvolvimento nos órgãos legislativos do outro lado do Atlântico.

    Tanto a União Europeia (UE) quanto o Reino Unido estão planejando leis para erradicar o desmatamento de suas cadeias produtivas (ambos são grandes importadores de bens, incluindo soja e carne bovina, que impulsionam o desmatamento no Brasil).

    Mas as leis de due diligence que a UE e o Reino Unido estão propondo são fundamentalmente falhas.

    Do jeito que estão, as propostas da UE e do Reino Unido não abordam adequadamente as violações dos direitos humanos que muitas vezes andam de mãos dadas com o desmatamento. Ambos dependem exclusivamente das leis dos países produtores para determinar se os direitos comunitários à terra são protegidos.

    Deixar a proteção dos direitos indígenas nas mãos de Bolsonaro é como deixar uma raposa no comando de um galinheiro.

    Se, por exemplo, nossos juízes do Supremo Tribunal Federal cumprirem o limite de tempo e mais de nossas terras forem confiscadas de nós, então quaisquer bens cultivados ou produzidos naquela terra seriam considerados legais sob as atuais propostas do Reino Unido e da UE.

    Nossos ancestrais foram expulsos de suas terras quando invasores europeus chegaram aqui há 521 anos, e o roubo continua desde então.

    Os juízes da Suprema Corte do Brasil e os legisladores da UE e do Reino Unido não devem ser cúmplices.


    Avatar de Giselle Wagner

    Giselle Wagner é formada em jornalismo pela Universidade Santa Úrsula. Trabalhou como estagiária na rádio Rio de Janeiro. Depois, foi editora chefe do Notícia da Manhã, onde cobria assuntos voltados à política brasileira.