Após uma paralisação nesta terça-feira, 14, os estudantes da USP (Universidade de São Paulo) começaram a votar sobre a realização de uma greve. As unidades da Each (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) e da Faud (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design) já aprovaram o boicote às aulas.
Uma assembleia foi convocada pelo DCE (Diretório Central dos Estudantes) para as 18h, na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), para discutir e estruturar melhor a mobilização. Cada faculdade deve realizar sua própria votação nos próximos dias.
Entre as principais reivindicações dos alunos estão melhores condições de permanência, como aumento no valor das bolsas, e a qualidade dos serviços nos restaurantes universitários. Denúncias de refeições estragadas e com larvas, especialmente na Faculdade de Direito, surgiram nas últimas semanas. Os restaurantes são geridos por empresas terceirizadas.
O DCE declarou que a situação não é isolada e que se inspira nos funcionários, que lutam por reajuste salarial e isonomia. Os servidores da USP deflagraram greve na mesma terça-feira.
O motivo da mobilização dos servidores é a aprovação de um bônus para professores, chamado de Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas). A medida, aprovada pelo Conselho Universitário em 31 de março, prevê um pagamento extra de R$ 4.500 para docentes que assumirem projetos considerados estratégicos.
A iniciativa, promessa de campanha do atual reitor Aluisio Segurado, terá um impacto anual de R$ 238,44 milhões para a universidade. O salário inicial de um professor-doutor na USP é de R$ 16.353,01, e a bonificação representa um acréscimo de 27,5%.
A discussão sobre o Gace também deu início ao movimento dos estudantes. Além da paralisação desta terça, que teve mais de 100 cursos participantes, eles agora debatem aderir à greve dos servidores.
Segundo o DCE, nos próximos dias todos os cursos e campi discutirão a adesão. A entidade avalia que a mobilização é irreversível e só será encerrada com conquistas concretas.
A reitoria da USP se manifestou após a aprovação da gratificação. Em nota, o reitor afirmou que o objetivo é valorizar as atividades acadêmicas e a carreira docente, visando o reconhecimento e a retenção de talentos, além do estímulo à excelência acadêmica.
Segurado também disse que há projetos para os servidores técnico-administrativos em análise, incluindo a viabilidade de uma proposta de valorização para esse grupo. A gestão anunciou reajustes em benefícios a partir de abril deste ano.
O vale-alimentação passará de R$ 1.950 para R$ 2.050. O vale-refeição será aumentado de R$ 45 para R$ 65 por dia. O auxílio-saúde terá reajuste de 14,3%, com pagamento em maio de 2026.
A reportagem procurou a reitoria novamente na manhã desta quarta-feira, mas não obteve nova manifestação até a publicação do texto.
Sobre a permanência estudantil, a USP informou que, em 2023, estabeleceu uma política de suporte que inclui bolsas e auxílios. A seleção dos alunos leva em conta questões de vulnerabilidade socioeconômica.
Entre 2023 e 2025, 41,7% dos beneficiados eram de famílias com renda menor que meio salário mínimo paulista, de R$ 1.804. Quanto aos restaurantes, a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento afirmou que equipes técnicas estão visitando as unidades para apurar as ocorrências relatadas e que medidas administrativas estão sendo tomadas.
Greves na USP se repetem desde 2000 com foco em salários e permanência. Desde o início dos anos 2000, a universidade registra uma sequência de paralisações com pautas como reajuste salarial, financiamento e políticas de permanência estudantil.
Entre os episódios principais estão a longa paralisação da FFLCH em 2002, por falta de professores, a ocupação da reitoria em 2007 em defesa da autonomia universitária, e a greve de 2014, a maior da história da instituição, com 116 dias de duração durante uma crise financeira.
Nos anos seguintes, novas paralisações mantiveram o foco na recomposição salarial e nas condições de ensino. Já em 2023, o déficit no quadro de professores motivou a última greve enfrentada pela USP.

